• Guilherme Cardoso

Violência é coisa de hoje


Houve um tempo no Brasil e especialmente em Belo Horizonte, em que a violência era praticamente zero.

Assaltos, roubos, homicídios eram coisas raras. Feminicídio, palavra recente para o assassinato de mulheres, tão comum hoje em nossos dias, não existia até a década de 80, ou seja, 40 anos atrás.

Pouco tempo quando se fala em passado.

Esse negócio de segurança privada e carro forte blindado para buscar e levar dinheiro entre empresas e bancos não existia até a década de 60.

Nessa época eu trabalhava em Banco e era costume a gente buscar dinheiro todos os domingos no cine Brasil, após o início da sessão de cinema das 10 horas da manhã. Era a chamada Premiere, quando um filme inédito e programado para ser exibido na semana seguinte era exibido em caráter especial nas manhãs de domingo.

O cine Brasil, como a maioria dos cienmas de BH eram de propriedade da empresa Cinemas e Teatros de MG, cujo dono era o médico e industrial Antonio Luciano Pereira Filho, figura folclórica daquela época, por ser considerado o maior assediador de garotas de Minas Gerais.

Todos os domingos, iam dois funcionários do Banco com uma maleta, recolhiam todo o dinheiro dos ingressos vendidos e desciam tranquilamente a Av.Amazonas, viravam a esquerda para a R.Espírito Santo e novamente a esquerda na R.dos Caetés e chegava-se ao número 355 da agência do Banco Agrícola Mercantil do Rio Grande do Sul.

Era um procedimento que se repetia todos os domingos pela manhã, sem segurança especial, nem armas em punho, e os funcionários que faziam esse serviço não recebiam nenhum auxílio de periculosidade, apenas horas extras pelo trabalho.

Outro trabalho que se fazia com tranquilidade naquele tempo e que se fosse hoje seria objeto de constantes assaltos era a troca de cheques entre os Bancos, que se realizava todas as noites, após o fim do expediente bancário, e que era realizado na antiga agência do Banco do Brasil na R.Espírito Santo, entre Av.Afonso Pena e R.dos Carijós.

De segunda a sexta-feira, à partir das 19 horas e sem hora de terminar, funcionários de todos os Bancos da capital, e eram muitos na época, se reunião em um andar do Banco do Brasil e ali trocavam os cheques que eram emitidos pelos clientes de um Banco para o outro.

Era um trabalho artesanal, não havia máquinas eletrônicas, eram todas manuais, e aquelas centenas de cheques eram somados por cada Banco que recebia e os valores tinham que ser iguais aos do Banco que emitia. E sempre davam diferenças nas somatórias finais que precisavam ser acertadas, nem que fosse preciso passar a noite e a madrugada.

Eu nem me lembro de quantas vezes virei a noite e a madrugada trabalhando nesse Setor de Compensação de Cheques no Banco do Brasil.

E depois de tudo terminado, eu colocava aquele monte de cheques de todos os valores em uma sacola de pano, dependurava no pescoço, entrava no Banco sozinho de madrugada, abria o cofre forte da agência e guardava lá todos os cheques para serem lançados no dia seguinte nas contas dos clientes.

E nunca se teve notícias que algum funcionário tivesse sido assaltado durante esse trajeto, com esses cheques bancários de tamanho valor e importância.

Eram tempos inocentes, tempos tranquilos, tempos que não voltam mais.

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