• Guilherme Cardoso

Bancário de antigamente


Houve um tempo aqui em Belo Horizonte, não muito distante, até os anos 80, 90, que as atividades bancárias eram muito artesanais, tudo feito a mão, sem máquinas eletrônicas.

Completamente diferente dos serviços bancários de hoje, com tudo automatizado, caixas eletrônicos, compras e pagamentos pela internet, a maioria das transações sem necessidade de se comparecer a uma agência bancária.

Mas, até 30 anos atrás, a vida de um bancário, embora fosse considerada uma profissão de valor, bem remunerada, especialmente nos bancos estatais, como Caixa Econômica e Banco do Brasil, o funcionário trabalhava muito e duramente.

Como a informática estava no início, poucos computadores e nem internet havia, quase todas as operações bancárias eram feitas à mão, literalmente.

Os lançamentos de crédito e débito dos clientes eram feitos ou a caneta ou datilografados em fichas de papelão e os valores recebidos ou pagos eram somados em calculadoras com bobinas de papel.l E os totais tinham que empatar, sem um centavo de diferença, e quando isso acontecia, e sempre acontecia, a gente tinha que ficar trabalhando no Banco até altas horas da noite.

Os clientes eram todos atendidos presencialmente no balcão da agência bancária, tanto para depositar, para sacar ou fazer algum pagamento. E às vezes ficavam horas na fila.

Tudo que se pagava era através de cheques. E para sacar dinheiro no Banco tinha que preencher um cheque também. Cartões de crédito estavam no início, eram pouco usados.

Até os anos 70, os Bancos pagavam juros sobre os valores dos clientes mantidos em contas correntes. Diferentes de hoje em que se pagam juros somente para as contas de poupança.

Lembro que a cada seis meses, junho e dezembro, o Banco escalava vários funcionários de outros setores para calcularem os juros de milhares de clientes. A gente trabalhava uma noite e madrugada inteira do último dia do semestre calculando os juros a serem pagos aos clientes no dia seguinte.

E era tudo manual, usando uma maquininha Facit de calcular juros, onde a gente ia somando os saldos diários dos clientes durante os seis meses anteriores, depois dividia pelo número de dias úteis, segunda a sexta, colocava uma taxa de um ou dois por cento e apurava quanto creditar ao cliente.

Naquela época, pior que hoje, os aposentados tinham a mania de madrugar na porta das agências bancárias para receber seus benefícios. Era o medo do dinheiro acabar na parte da tarde. E nesse tempo os aposentados até tinham razão de chegar cedo para receber, pois sempre acontecia do INSS enviar valores insuficientes para pagar todos no mesmo dia.

Os empréstimos pessoais nos Bancos eram chamados de papagaios. Eram empréstimos feitos com Notas Promissórias, com dois avalistas, com vencimento inicial de 90 dias. Depois desse vencimento, havia mais duas reformas, ou seja, mais duas reformas, ou seja, mais duas prorrogações do vencimento para 60 e 30 dias, quando o débito tinha que ser quitado.

E nem todos os clientes tinham facilidades para conseguir um empréstimo bancário. Era preciso ter um bom saldo na conta, bons fiadores e um bom relacionamento com os gerentes e sub gerentes.

Se hoje há burocracia nos Bancos, naqueles tempos havia muito mais. Mas tinha as exceções, asw amizades, a confiança.

Eu fui Supervisor de Serviços no Unibanco, na agência da Av.João Pinheiro, uma espécie de sub gerente de empréstimos e fazia questão de simplificar os procedimentos. Eu usava muito a confiança nas pessoas, onde trabalhavam, as indicações de outros colegas de serviço para liberar empréstimos.

Sei que foram muitos os funcionários do jornal Estado de Minas que tinham conta no Unibanco que me procuravam para fazer empréstimos, os chamados empréstimos parcelados em até 6 meses. Eram valores pequenos, no máximo o mesmo valor do salário que recebiam no jornal.

Meu cunhado, o Pércles Cordeiro, conhecido no jornal como Periquito, indicava os colegas para me procurar. Eu liberava os empréstimos rapidamente, sem fiador e o pessoal pagava tudo direitinho. Nunca ninguém deu o cano no Banco. Tudo na base da honestidade e do respeito.

Eram tempos que a palavra dada, o compromisso assumido eram respeitados e cumpridos de qualquer jeito.

Eram tempos diferentes, tempos antigos, tempos que não voltam mais.

Muito obrigado e um bom domingo .



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