• Guilherme Cardoso

Amigos do lado esquerdo do peito


Naqueles anos 60 e 70 a gente tinha amigos de verdade. E não eram considerados namorados ou amantes como dizem hoje.

Mulher podia ter amizade com outra mulher, siar juntas, ficar horas conversando e ninguém pensava que eram lésbicas ou sapatões.

Homem podia sair a noite com um outro homem, ir à festas, bailes, tomar uma cerveja juntos, ficar horas batendo papo, e ninguém imaginava ou perguntava se eles eram homossexuais, se eram bichas, veados ou gays.

Embora a minha preferência sempre fosse ter a companhia das mulheres, não tinha nada de errado ou constrangedor ter amigos para conversar, contar casos, jogar baralhos, tomar cerveja até altas horas da noite. Jamais se abraçando, nunca se beijando, no máximo um aperto de mão.

Eram assim as amizades entre homens com homens e mulheres com mulheres naqueles velhos tempos que não voltam mais.

Eu tinha muitos colegas homens, amigos nem tantos. Os mais íntimos, parceiros e companheiros, eram o João e Zé Luiz.

João Alves Pereira Filho, apelidado como João Gordo, era pontenovense de nascimento, um sujeito de estopim curto, muito correto, exigente com quem estivesse ao seu lado.

Fez carreira na Cia Atlantic de Petróleo, onde chegou a superintendente. Embora um sujeito simples, tinha hábitos sofisticados, curtia cantores e músicas internacionais e apreciava um bom uísque importado, numa época em que a gente bebia apenas cachaça, algumas vezes, uísque brasileiro ou falsificado.

Filho mais velho do seu João, um homem sisudo, de poucos risos, quase nenhuma conversa e de Dona Ziza, Marta Alves Pereira, a mãe, uma senhora morena, baixinha e sempre risonha.

José Luiz Ribeiro de Souza, o Zé Luiz, era de uma família de 12 filhos, morador desde os primeiros anos na Rua Leopoldo Gomes, coincidentemente a mesma rua em que o João Alves morava, no Bairro da Pompeia em Belo Horizonte.

Funcionário dos Correios & Telégrafos desde garoto, por lá se aposentou. Seus hábitos, ainda mais simples, em nada parecidos com os do João, eram os jogos de totó e ping-pong e a paixão pela música, especialmente as instrumentais, as grandes orquestras e as trilhas sonoras de filmes.

Companheiros em todas as atividades realizadas no bairro da Pompeia, nas peças de teatro, cinema, no jornalzinho do bairro que eu produzia, nas horas dançantes nas casas de famílias que nós frequentávamos aos finais de semana.

Na JUF, o João era o técnico da equipe de futebol. Eu e o Zé Luiz, jogávamos. Não éramos os melhores jogadores, mas os mais frequentes, os mais “fominhas”. E os que mais ficavam irritados quando o amigo treinador tirava um de nós no intervalo dos jogos.

Como muitos daquela época, que viveram intensamente e eram felizes, João Alves faleceu precocemente em 1998 aos 58 anos, e José Luiz há dois anos atrás aos 70 anos de idade.

Esses foram amigos do lado esquerdo do peito, como disse o cantor Milton Nascimento.


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